terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O espiritismo e as ciências naturais

O corpo humano é simplesmente a estrutura biológica mais complexa. O processo de construção de tal maravilha de complexidade e funcionalidade pode ser rastreado a partir do conhecimento das leis da natureza, da quimica e da física.
A ciência então provou que a resposta à pergunta 356 está certa? Não, apenas podemos dizer que a afirmativa lá expressa é compatível com o que a ciência biológica tem descoberto. Os cientistas  não têm condição de dizer se o espiritismo está certo ou errado mas podemos recorrer aos resultados da pesquisa para avaliar se tal ou qual afirmativa doutrinária é ou não contrariada por estes resultados.
Mas nem toda afirmativa doutrinária pode ser cotejada com a pesquisa científica. No caso da pergunta 356 isto é possível porque o fato apontado está dentro da nossa capacidade de observação. Se na resposta se dissesse que um feto natimorto pode ressuscitar, esta afirmativa seria incompatível com o conhecimento científico estabelecido. Mas a afirmativa doutrinária sobre a existência e as características do perispírito não é passível de ser comparada com o que diz a pesquisa científica atual porque esta não tem o instrumental adequado para avaliar se o perispírito existe ou não. Consequentemente não tem como se pronunciar, nem contra nem a favor.
Sempre que se ouvir dizer, ou se ler que em tal lugar ou o Dr. Fulano provou que o Espírito existe ou que foi comprovada a existência do perispírito ou coisa equivalente, pode-se ficar certo de que é história mal contada...
O espiritismo é a ciência da alma e nada ou quase nada tem a ver com as ciências naturais. No final do século XIX, quando se descobriu os raios X, os espíritas ficaram deslumbrados porque finalmente estava comprovada a existência dos fluidos espírituais. E, recentemente, quando os meios de comunicação começaram a falar em anti-matéria, em alguns orgãos da imprensa espírita escreveu-se que finalmente estava comprovada a existência do espírito...

domingo, 20 de fevereiro de 2011

O papel do perispírito na geração do corpo

Os chamados "espiritualistas" (categoria em que estou incluindo também, embora não muito confortavelmente, muitos espíritas...) costumam enveredar, de uma forma um tanto leviana, pelas fronteiras do conhecimento científico da sua época, para tentar encaixar e dar credibilidade às suas próprias idéias religiosas, esotéricas, místicas etc. A coisa funciona assim: em determinada área de estudos os conhecimentos científicos não estão consolidados, ainda há teorias conflitantes e questões não resolvidas apresentam-se como enigmas.Isto acontece atualmente com a teoria quântica da matéria e com teorias cosmológicas confirmadas ou não, mas às vezes, também, na área da biologia.
Pessoas animadas das melhores intenções (e disto eu não tenho dúvidas) se julgam autorizadas a prestar a sua colaboração para o progresso da humanidade mostrando que os enigmas científicos só poderão ser desvendados se forem utilizados os conceitos que eles julgam ser privilégio das suas visões religiosas ou iniciáticas.
No último quartel do século XIX  isto aconteceu entre os espíritas. Gabriel Dellane, filho de Alexandre Dellane, que foi médium e colaborador de Allan Kardec na Sociedade Espírita de Paris e que foi, ele próprio, valioso divulgador da doutrina espírita, através de livros, palestras etc, introduziu a idéia do perispírito como o instrumento da gênese do ser intrauterino, agindo como molde, para que em cima dêle fosse montado o quebra-cabeça do corpo (a imagem é minha).Esta ideia vem sendo repetida incessantemente desde então sem que se pare para verificar a sua coerência com o conceito original de perispírito na codificação e a sua  consistência diante das descobertas da bioquimica moderna.
Hoje, quando se fala com familiaridade de células tronco,clonagem, cultura de tecidos e da síntese em laboratório de estruturas biológicas cada vez mais complexas, podemos examinar a pergunta 356 e dizer, sem espanto algum, que nem o espírito nem o perispírito são necessários para constuir o corpo humano.O que não significa dizer que o Espírito, através do perispírito, não possa influir no processo e provocar modificações na estrutura final.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A pergunta 356 e a moderna biologia

Na pesquisa biológica moderna encontra-se muitas evidências de que estruturas biológicas complexas podem ser sintetizadas em laboratório a partir de substâncias químicas simples, organizando-se espontaneamente pela ação de forças fisico-quimicas, em processos que podem ser controlados pelos pesquisadores.
Até mesmo uma célula bacteriana já foi montada em laboratório e não se duvida de que, dentro de algum tempo, células mais complexas possam ser construidas a partir das substâncias quimicas que constituem o ser vivo. Seria isto,então, a criação da vida biológica pelo homem.
Conhece-se muito, hoje, do processo chamado de "diferenciação celular", isto é, o processo pelo qual o zigoto, a célula inicial na reprodução humana, vai se multiplicando e se transformando em tecidos, que, por sua vez, se transformam em orgãos e estes se reunem para formar os organismos.
No século XIX nada se conhecia sobre diferenciação celular e os próprios cientistas da época ficavam perplexos com este "milagre" que era a criação de uma estrutura biológica que ao final do processo apresentava-se com consciência, pensamento e vontade.

Um exemplo

Examinemos criticamente a pergunta 356 do LE. (Tradução Feb, Guillon Ribeiro)
P. 356
Entre os natimortos alguns haverá que não tenham sido destinados à encarnação de Espíritos?
"Alguns há, efetivamente, a cujos corpos nunca nenhum espírito esteve destinado. Nada tinha que se efetuar para eles. Tais crianças então só vem por seus pais."
Para mim, o que está claro na resposta é que um feto pode se desenvolver no ventre da mãe sem o concurso de um Espírito. Na extensão da resposta diz-se que a criança pode até nascer, mas não vive, não se desenvolve como um ser humano. É apenas um equipamento biológico que não foi utlizado 
Pode-se concordar ou não com esta opinião.Afinal, como diz a nossa epígrafe, o espiritismo é uma opinião. Pode-se estar convicto de que o corpo físico só pode ser gerado se um Espírito comandar o processo através do perispírito.
Mas não e isso que está escrito. Eu concordo plenamente com a posição do Espírito (ou dos Espíritos) que formulou esta resposta

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A afirmativa de um texto doutrinário ou evangélico é uma prova?

Uma opinião embutida no pensamento espírita brasileiro, inclusive em livros mediúnicos, afirma que o mundo material necessita do mundo espiritual  para ser construido. O planeta Terra, por exemplo, teria sido gerado pelo influxo mental de espíritos elevadíssimos. O corpo físico, estrutura biológica que abriga o espírito durante a reencarnação, deste espírito necessitaria para se desenvolver durante a gestação, através da ação modeladora do perispírito.
Eu digo, porém, que a própria natureza física tem todos os recursos necessários para que estas estruturas sejam montadas, tanto a gênese do planeta como a elaboração, passo a passo, do equipamento biológico que o ser espiritual utilizará.
Mais um pouquinho sobre exegese. Quando examino o texto doutrinário não estou dizendo que tal ou qual resposta é uma prova do que estou afirmando. Estou apenas dizendo que o que está escrito no texto é isto ou aquilo. Mas eu posso usar evidências externas ao texto para dizer que o que está escrito é coerente ou não com estas evidências. Eu posso, por exemplo, tomar os resultados de uma pesquisa científica, comparar com o que está escrito e dizer: o que está escrito é compatível com o resultado da pesquisa. De modo algum estou dizendo que a pesquisa cientifica provou que o texto está certo ou errado. A pesquisa científica é valiosíssima no seu contexto, mas é preciso muita cautela para que a apliquemos em um contexto que não é o seu. E o contexto espírita nada tem a ver com a pesquisa em ciências naturais!

Outra razão

Não esqueçamos, na nossa exegese, daquela passagem do LE, já apontada em postagem anterior, a qual diz que, embora o mundo espiritual seja o principal ( o que é óbvio, porque nele é que existem os seres inteligentes da criação, isto é, os seres que pensam, sentem e querem, na sua condição natural, sem o peso da estrutura física), diz também que as duas condições de existência são independentes, isto é, são regidas por leis que são próprias a cada uma delas. Além disto, a resposta (à pergunta 86) afirma que os dois mundos incessantemente reagem um sobre o outro. Não se diz que o mundo espiritual controla o mundo material. Mas os espíritas, na sua maioria continuam a usar de modo equivocado a afirmativa sobre a precedência do mundo espiritual...

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Outras causas

Façamos um pequeno exercício de exegese. Chama-se de exegese examinar um texto ou uma palavra procurando discernir a sua real significação, adicionando informações que não estão no objeto do exame.
A resposta à pergunta 459 do LE é citada muitas vezes para alertar sobre a nossa dependência dos espíritos. Kardec pergunta se os espíritos influem nos nossos pensamentos e ações. Na resposta em francês aparece a expressão "bien souvent", que foi traduzida na edição da Feb, por Guillon Ribeiro, como "de ordinário". Ora, quem diz que algo acontece assim ou assado "de ordinário", diz que a regra, o padrão, seja assim ou assado. Deste modo, a regra seria que os espíritos nos dirigissem e a nossa vontade seria exceção.
Mas a melhor tradução para "bien souvent" é "frequentemente", "muitas vêzes" e não "de ordinário". Posteriormente, outras traduções corrigiram o engano (ou a preferência de Guillon Ribeiro...). Ficou porém a ideia, reiterada em palestras, artigos e livros, da nossa dependência em relação aos espíritos. Muitas vezes, frequentemente, somos influenciados com muita intensidade por espíritos bons ou maus. Muitas vezes, frequentemente, nos sobrepomos a esta influência, para nosso benefício ou prejuízo.
Isto é a vida. A vida é assim...