sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Algumas idéias...

Imre Lakatos e Karl Popper são figuras exponenciais da área da Filosofia da Ciência. Eis algumas idéias instigantes.Deixo bem claro que não sou um especialista da área e nem mesmo um curioso mais ou menos informado. Apenas topei com estas idéis em leituras descompromissadas e gostei delas. Bom assunto para discussões fraternas com quem aprecia estas filosofices...

Karl Popper  in " A lógica da pesquisa científica":
A propósito da possibilidade da Epistemologia (a teoria do conhecimento) proporcionar o que seria uma "reconstrução racional" das fases que conduzem um cientista ao encontro de alguma verdade nova:
"...a visão que tenho do assunto, valha o que valer, é a de que não existe um método lógico de conceber idéis novas ou de reconstruir logicamente esse processo. Minha maneira de ver pode ser expressa na afirmativa de que toda descoberta encerra um "elemento irracional" ou uma "intuição criadora" no sentido de Bergson. De modo similar, Einstein fala da "busca daquelas leis universis (...) com base nas quais é possível obter, por dedução pura, uma imagem do universo.Não há caminho lógico", diz ele,"que leve a essas (...) leis. Elas só podem ser alcançadas por intuição, alicerçada em algo assim como um amor intelectual aos objetos da experiência".

Imre Lakatos, no ensaio "Science and pesudoscience":
 "...uma afirmação pode ser pseudocientífica mesmo que seja eminentemente possível e que todos acreditem nela e pode ser cientificamente valiosa mesmo que seja inacreditável e que ninguém acredite nela"


Ainda no mesmo ensaio:
"O traço fundamental do comportamento científico é um certo ceticismo, mesmo frente às suas mais acalentadas teorias.O compromisso cego com uma teoria não é uma virtude inelectual. É um crime intelectual

domingo, 19 de junho de 2011

Um projeto de libertação

Diferentemente do projeto do catarismo, a Reforma protestante terá envolvido espíritos com características muito próximas da Igreja Católica. A intenção era , certamente de reformar a instituição, mas dentro do modelo doutrinário já existente. Desvios desta proposta inicial devem ser creditados ao próprio fluxo das ideias, à dinâmica social.
Para mim, o catarismo e a Reforma foram implementados por grupos de espíritos pertencentes a diferentes linhagens espirituais, lutando cada grupo por espalhar o seu ideário e a sua visão de mundo entre os homens, sempre dentro da premissa de que qualquer evento, da história social e das histórias individuais, envolve uma associação entre homens e espíritos que têm visões de mundo e objetivos semelhantes.
A dotrina espírita também foi um projeto de um grupo de espíritos com determinadas caracteísticas, que buscaram, levados pelo ideal de ajudar os homens, ensinar a sociedade humana a dar um passo adiante. Acreditaram que iriam mudar a sociedade como um todo. Isso não conseguiram, mas conseguiram, isto sim, espalhar as sementes de ideias que, para muitos, milhões certamente, ensinaram a percorrer um caminho de libertação que depende fundamentalmente da disposição e das possibilidades de cada espírito.
Glória e paz a estes valentes semeadores da liberdade espiritual!

domingo, 12 de junho de 2011

O projeto espírita

A implantação do projeto espírita não visou, tal como é entendido no movimento espírita brasileiro e como o próprio Kardec entendeu, regenerar a humanidade e salva-la, em um sentido providencial. Certamente outros projetos análogos existiram no correr da história, em contextos sociais e geográficos diversos, que tiveram maior ou menor êxito e que deixaram ou não as suas marcas nos registros históricos
O catarismo, nos séculos XI a XIII e a Reforma protestante, no século XVI, são na minha opinião, claros exemplos de projetos que visavam a modificação da sociedade ocidental naqueles momentos históricos. Os cátaros intentaram implantar uma comunidade que se organizava em torno da ideia de reencarnação, com mudanças radicais nas relações entre homens e mulheres e nas relações de trabalho, na direção oposta à da sociedade da época. Embora tenha sido sempre apresentada pela Igreja como uma heresia do catolicismo, a doutrina cátara era extremamente original e nada tinha da doutrina católica. O projeto era por demais avançado e afundou na repressão bárbara patrocinada pela igreja e pelos nobres a ela ligados. Além da ideia de reencarnação há indícios da prática da mediunidade e do contato com desencarnados o que liga claramente o movimento cátaro  ao espiritismo de seis séculos depois. Terá sido o mesmo grupo de espíritos?

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Espiritismo, filho dileto do Iluminismo

Eu disse anteriormente que não se deve considerar o aparecimento da doutrina espírita, em determinado momento histórico, como um evento singular e diferenciado, como um evento único no cenário do planeta, sobrepondo-se a outros eventos contemporâneos, Melhor é vê-lo como um movimento de ideias, originado de um grupo muito amplo de espíritos de elevada condição, evidentemente planejado e montado levando em conta as circunstâncias históricas mais adequadas aos objetivos deste grupo.
Para mim é evidente que este grupo é composto por espíritos todos pertencentes à sociedade e à cultura ocidental.

domingo, 5 de junho de 2011

A doutrina espírita como um projeto

O espiritismo só poderá aspirar a enfileirar-se entre as correntes de ideias que tenham alguma influência sobre a sociedade como um todo quando estiver formatado como uma visão de mundo naturalística, inserido nas leis da natureza de modo espontâneo, sem um viés especial de "revelação", ou seja, sem ser entendido como um evento singular e diferenciado na história da humanidade.
Esta  abordagem naturalística, que não elimina a fraternidade e a solidariedade que são parte essencial da visão espírita de mundo, parte da ideia de que existe uma única sociedade, formada embora por espíritos e homens, que sendo independentes nas suas formas de existência, interagem porém incessantemente uns sobre os outros.
Todos os eventos das relações entre homens e espíritos, entre espíritos e espíritos ou entre homens e homens são da mesma natureza, podendo ser considerados, de uma forma ampla, como projetos, de dimensões e alcance variadíssimos, tão variados quanto a infinita variedade de convívência entre os seres.
Neste modo de ver, o que é a doutrina espírita? Um amplíssimo projeto, concebido e realizado por espíritos e homens de elevado discernimento espíritual e vasta capacidade intelectual, com o objetivo bem definido de fazer circular, na sociedade ocidental, a ideia fundamental da sobrevivência da alma à destruição do corpo.

terça-feira, 31 de maio de 2011

A "transição"

A expectativa de Kardec e de espíritos que teriam se manifestado pela mediunidade (a da regeneração da Terra em pouco tempo)  não se concretizou, mas os espíritas brasileiros, na sua quase totalidade, não se detêm para discutir o fato e reavaliar as suas expectativas. Permanecem triunfalistas, esperando por uma transformação implementada por intervenções externas, sem se dar conta de que esta espera por uma modificação compulsória da sociedade é ideia antiga que começou entre os primeiros cristãos, que esperavam a volta de Cristo ressuscitado, sobre as nuvens, ao som de trombetas.
Como Jesus não voltava, muitos começaram a descrer. Em IIPedro 3(3)  (lê-se: Segunda Epístola do Apóstolo Pedro,capítulo 3, versículo 3) diz o apóstolo:
"Sabendo primeiro isto: que nos últmos dias virão escarnecedores... dizendo: Onde está a promessa da sua vinda, porque...todas as coisas permanecem como desde o princípio da criação"
No versículo 8: "Mas, amados, não ignoreis uma coisa: que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia"
No versículo 9: "O Senhor não retarda a sua promessa,ainda que alguns a têm por tardia..."
No versículo 12: "Aguardando e apressando-vos para a vinda do dia de Deus, em que os céus em fogo se desfarão e os elementos ardendo se fundirão"
No versículo 13: "Mas nós, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e nova terra em que habita a justiça"
Esperaram e depois cansaram de esperar, "...a nova terra, em que habita a justiça".Também os espíritas estão esperando a nova Terra, que será habitada pelos justos...

segunda-feira, 30 de maio de 2011

O movimento que não vingou

Kardec, em livros e na Revista Espírita, deixou bem clara a sua convicção de que o papel do espiritismo seria de propiciar a renovação moral da humanidade através das provas irrefutáveis da sobrevivência do ser espiritual depois da morte do corpo. Na esteira desta comprovação viria a disseminação da idéia de reencarnação e da comunicação entre os dois planos de vida, pela mediunidade.
Esta convicção se fundava na rapidez da propagação das idéias espíritas em muitos paises (especialmente os europeus) e da adesão de personalidades conhecidas, senão às idéias pelo menos à realidade do fenômeno.
Descobrir-se as razões pelas quais o movimento não vingou depois de início tão promissor é questão de solução difícil. Pode-se alinhas razões sociológicas e razões espirituais. O fato é que não parece que a sociedade, como um todo, tenha sido tocada pela doutrina, embora a idéia de rencarnação esteja disseminada entre uma parcela da população, mesmo que minoritária, em alguns poucos paises, como os Estados Unidos, em que atores famosos se declaram adeptos da ideia, nos meios de comunicação, o que amplifica a repercussão e dá  uma impressão exagerada do significado do fato. O mais provável é que a reencarnação seja relacionada  mais com exotismos que com ilações de ordem moral.

domingo, 29 de maio de 2011

Outra visão da doutrina espírita

O conceito de doutrina espírita expressado na postagem anterior é próprio da visão de mundo religiosa e parte da premissa de que o mundo material está submetido ao comando do mundo espiritual, o que consideramos equivocado e não pertencente à visão de mundo genuinamente espírita, expressada em "O Livro dos Espíritos". Esta visão  supõe que a providência divina supervisiona  momento a momento o que acontece no mundo e intervem  quando julga apropriado, interferindo nos negócios humanos para corrigir rumos ou induzir o progresso da humanidade.
Sob outra perspectiva, parte-se da premissa de que os rumos da sociedade terrena nascem da congregação de forças internas a ela, prescindindo da intervenção e do controle (mas não da colaboração e da participação) de forças espirituais externas. Pode-se então conceber a doutrina espírita como um amplíssimo projeto, envolvendo homens e espíritos imbuidos da necessidade de fazer patente aos encarnados a existência de um princípio espiritual sobrevivente à destruição do corpo físico.

sábado, 28 de maio de 2011

O que é a doutrina espírita?

Pode-se entender a doutrina espírita a partir de duas concepções:
Na primeira, que prevalece no movimento espírita brasileiro, concebe-se a doutrina como o resultado de uma intervenção de Deus, através de forças espirituais, com a intenção de promover o progresso da humanidade, em um momento determinado da história. Os espíritos rebeldes, incapazes de prosseguir a sua evolução no planeta regenerado, seriam apartados daqueles com nível de maturidade espiritual adequado à nova sociedade e exilados para outros mundos, em caráter de expiação.
Esta era a visão de Kardec, exposta em "A Gênese", no capítulo "Os tempos são chegados" e também no prefácio à primeira edição de "O Céu e o Inferno", prefácio posteriormente retirado. A doutrina espírita é, então, entendida como "revelação", na esteira do moisaismo e do cristianismo. Missionários encarnados, com o concurso de espíritos elevados, se encarregariam de implantar e estimular o movimento de regeneração da Terra.
Kardec, tanto quanto muitos espíritos e homens com ele envolvidos e que participaram dos esforços de consolidação e propagação do ideário espírita, estava convencido de que a grande transformação se efetuaria dentro de pouco tempo, porque já se vislumbravam, segundo ele,  os sinais da renovação moral das novas gerações e tendo em vista a impressionante velocidade de propagação do espiritismo no mundo inteiro.
Estas expectativas não se confirmaram. O movimento espírita, no final do século XIX e no começo do século XX, já se tinha amortecido na Europa e no resto do mundo, onde aliás não chegou a ter alguma expressão, a não ser em minúsculos nichos das elites pensantes.
Apenas no Brasil o espiritismo se fixou com alguma força na sociedade, embora com apreciáveis diferenças com relação ao propósito original do grupo de espíritos que implantou o movimento e concebeu o "Livro dos Espíritos".

sábado, 16 de abril de 2011

Reflexões miúdas

Pensam alguns que a doçura e o afeto devem ser sempre explícitos e verbalizados. Outros acham que eles podem ser, muitas vêzes, implícitos e silenciosos.

Queres ter boas possibilidades de viver em paz com o teu semelhante, e especialmente com aqueles por quem tens afeição ? Elimina da tua vida a zombaria e mesmo a ironia, porque elas ferem de um modo que não consegues enxergar. Mas atenção, às vêzes é preciso uma vida inteira para que aprendamos a discernir onde surgem uma e outra, no meio dos pequenos incidentes da vida cotidiana.

sexta-feira, 11 de março de 2011

A síntese de orgãos em laboratório

Os jornais de ontem trouxeram, muito a propósito do que eu escrevi nestas últimas postagens, uma notícia muito interessante.Transcrevo-a parcialmente:
"Há bem pouco tempo, órgãos artificiais feitos sob medida pertenciam ao campo da ficção científica. Não mais, ao menos para orgãos e tecidos menos complexos.Pela primeira vez, cientistas americanos e mexicanos criaram uretras usando as próprias células dos pacientes, o que eliminou o risco de rejeição. Cinco meninos mexicanos, que haviam sofrido sérias lesões e perdido a capacidade de urinar, receberam o transplante de uretras novas. Seis anos após o implante, eles levam uma vida normal.
De acordo com os pesquisadores, as novas uretras funcionam como as naturais, num sinal de que a ciência é capaz de criar  orgãos simples sob medida plenamente satisfatórios.
O primeiro orgão sob medida totalmente funcional foi a traqueia produzida com as células de uma mulher vítima de câncer em 2008, na Espanha. Implantada na mulher, ela funciona bem até hoje.Mas desta vez cinco pacientes foram tratados de uma vez.
- Não é mais ficção científica pensar em fabricar orgãos sob medida, disse Patrick Warnke, um especialista em engenharia de tecidos da Universidade Bond, na Australia. A equipe de Warnke, que trabalhou como consultor no estudo, tenta desenvolver mandíbulas e tecido do olho em laboratório.
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 As células foram multiplicadas em laboratório por cerca de seis semanas. Depois foram usadas para cobrir um molde de um plástico biodegradável, chamado ácido poliglicólico, feito no formato da uretra....................................................................................."
"O Globo"  9/3/2011
O trabalho científico original foi publicado na conceituadíssima revista médica inglesa "The Lancet" de 8 de março. Eu conferí o original.

terça-feira, 8 de março de 2011

Porque a insistência com a idéia de "mundo espiritual"?

Porque o modo como conceituamos e visualizamos a existência espiritual condiciona o modo  pelo qual entendemos e praticamos as relações com os seres espirituais.Como estas relações são o fim a que se propõe o espiritismo é óbvio que temos que procurar uma visão a mais real possível desta condição de existência que chamamos de "mundo espiritual".
Uma visão distorcida da existência espiritual vai distorcer também as relações entre os espíritos e os homens, provocando situações que muitas vezes beiram o ridículo ou o patético, impedindo que a totalidade do contexto espírita seja percebida com nitidez. Esta percepção equivocada da verdadeira natureza do espiritismo passa também por uma visão equivocada da natureza da mediunidade, que talvez e paradoxalmente seja o maior problema do espiritismo, desde o seu aparecimento.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O espiritismo e as ciências naturais

O corpo humano é simplesmente a estrutura biológica mais complexa. O processo de construção de tal maravilha de complexidade e funcionalidade pode ser rastreado a partir do conhecimento das leis da natureza, da quimica e da física.
A ciência então provou que a resposta à pergunta 356 está certa? Não, apenas podemos dizer que a afirmativa lá expressa é compatível com o que a ciência biológica tem descoberto. Os cientistas  não têm condição de dizer se o espiritismo está certo ou errado mas podemos recorrer aos resultados da pesquisa para avaliar se tal ou qual afirmativa doutrinária é ou não contrariada por estes resultados.
Mas nem toda afirmativa doutrinária pode ser cotejada com a pesquisa científica. No caso da pergunta 356 isto é possível porque o fato apontado está dentro da nossa capacidade de observação. Se na resposta se dissesse que um feto natimorto pode ressuscitar, esta afirmativa seria incompatível com o conhecimento científico estabelecido. Mas a afirmativa doutrinária sobre a existência e as características do perispírito não é passível de ser comparada com o que diz a pesquisa científica atual porque esta não tem o instrumental adequado para avaliar se o perispírito existe ou não. Consequentemente não tem como se pronunciar, nem contra nem a favor.
Sempre que se ouvir dizer, ou se ler que em tal lugar ou o Dr. Fulano provou que o Espírito existe ou que foi comprovada a existência do perispírito ou coisa equivalente, pode-se ficar certo de que é história mal contada...
O espiritismo é a ciência da alma e nada ou quase nada tem a ver com as ciências naturais. No final do século XIX, quando se descobriu os raios X, os espíritas ficaram deslumbrados porque finalmente estava comprovada a existência dos fluidos espírituais. E, recentemente, quando os meios de comunicação começaram a falar em anti-matéria, em alguns orgãos da imprensa espírita escreveu-se que finalmente estava comprovada a existência do espírito...

domingo, 20 de fevereiro de 2011

O papel do perispírito na geração do corpo

Os chamados "espiritualistas" (categoria em que estou incluindo também, embora não muito confortavelmente, muitos espíritas...) costumam enveredar, de uma forma um tanto leviana, pelas fronteiras do conhecimento científico da sua época, para tentar encaixar e dar credibilidade às suas próprias idéias religiosas, esotéricas, místicas etc. A coisa funciona assim: em determinada área de estudos os conhecimentos científicos não estão consolidados, ainda há teorias conflitantes e questões não resolvidas apresentam-se como enigmas.Isto acontece atualmente com a teoria quântica da matéria e com teorias cosmológicas confirmadas ou não, mas às vezes, também, na área da biologia.
Pessoas animadas das melhores intenções (e disto eu não tenho dúvidas) se julgam autorizadas a prestar a sua colaboração para o progresso da humanidade mostrando que os enigmas científicos só poderão ser desvendados se forem utilizados os conceitos que eles julgam ser privilégio das suas visões religiosas ou iniciáticas.
No último quartel do século XIX  isto aconteceu entre os espíritas. Gabriel Dellane, filho de Alexandre Dellane, que foi médium e colaborador de Allan Kardec na Sociedade Espírita de Paris e que foi, ele próprio, valioso divulgador da doutrina espírita, através de livros, palestras etc, introduziu a idéia do perispírito como o instrumento da gênese do ser intrauterino, agindo como molde, para que em cima dêle fosse montado o quebra-cabeça do corpo (a imagem é minha).Esta ideia vem sendo repetida incessantemente desde então sem que se pare para verificar a sua coerência com o conceito original de perispírito na codificação e a sua  consistência diante das descobertas da bioquimica moderna.
Hoje, quando se fala com familiaridade de células tronco,clonagem, cultura de tecidos e da síntese em laboratório de estruturas biológicas cada vez mais complexas, podemos examinar a pergunta 356 e dizer, sem espanto algum, que nem o espírito nem o perispírito são necessários para constuir o corpo humano.O que não significa dizer que o Espírito, através do perispírito, não possa influir no processo e provocar modificações na estrutura final.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A pergunta 356 e a moderna biologia

Na pesquisa biológica moderna encontra-se muitas evidências de que estruturas biológicas complexas podem ser sintetizadas em laboratório a partir de substâncias químicas simples, organizando-se espontaneamente pela ação de forças fisico-quimicas, em processos que podem ser controlados pelos pesquisadores.
Até mesmo uma célula bacteriana já foi montada em laboratório e não se duvida de que, dentro de algum tempo, células mais complexas possam ser construidas a partir das substâncias quimicas que constituem o ser vivo. Seria isto,então, a criação da vida biológica pelo homem.
Conhece-se muito, hoje, do processo chamado de "diferenciação celular", isto é, o processo pelo qual o zigoto, a célula inicial na reprodução humana, vai se multiplicando e se transformando em tecidos, que, por sua vez, se transformam em orgãos e estes se reunem para formar os organismos.
No século XIX nada se conhecia sobre diferenciação celular e os próprios cientistas da época ficavam perplexos com este "milagre" que era a criação de uma estrutura biológica que ao final do processo apresentava-se com consciência, pensamento e vontade.

Um exemplo

Examinemos criticamente a pergunta 356 do LE. (Tradução Feb, Guillon Ribeiro)
P. 356
Entre os natimortos alguns haverá que não tenham sido destinados à encarnação de Espíritos?
"Alguns há, efetivamente, a cujos corpos nunca nenhum espírito esteve destinado. Nada tinha que se efetuar para eles. Tais crianças então só vem por seus pais."
Para mim, o que está claro na resposta é que um feto pode se desenvolver no ventre da mãe sem o concurso de um Espírito. Na extensão da resposta diz-se que a criança pode até nascer, mas não vive, não se desenvolve como um ser humano. É apenas um equipamento biológico que não foi utlizado 
Pode-se concordar ou não com esta opinião.Afinal, como diz a nossa epígrafe, o espiritismo é uma opinião. Pode-se estar convicto de que o corpo físico só pode ser gerado se um Espírito comandar o processo através do perispírito.
Mas não e isso que está escrito. Eu concordo plenamente com a posição do Espírito (ou dos Espíritos) que formulou esta resposta

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A afirmativa de um texto doutrinário ou evangélico é uma prova?

Uma opinião embutida no pensamento espírita brasileiro, inclusive em livros mediúnicos, afirma que o mundo material necessita do mundo espiritual  para ser construido. O planeta Terra, por exemplo, teria sido gerado pelo influxo mental de espíritos elevadíssimos. O corpo físico, estrutura biológica que abriga o espírito durante a reencarnação, deste espírito necessitaria para se desenvolver durante a gestação, através da ação modeladora do perispírito.
Eu digo, porém, que a própria natureza física tem todos os recursos necessários para que estas estruturas sejam montadas, tanto a gênese do planeta como a elaboração, passo a passo, do equipamento biológico que o ser espiritual utilizará.
Mais um pouquinho sobre exegese. Quando examino o texto doutrinário não estou dizendo que tal ou qual resposta é uma prova do que estou afirmando. Estou apenas dizendo que o que está escrito no texto é isto ou aquilo. Mas eu posso usar evidências externas ao texto para dizer que o que está escrito é coerente ou não com estas evidências. Eu posso, por exemplo, tomar os resultados de uma pesquisa científica, comparar com o que está escrito e dizer: o que está escrito é compatível com o resultado da pesquisa. De modo algum estou dizendo que a pesquisa cientifica provou que o texto está certo ou errado. A pesquisa científica é valiosíssima no seu contexto, mas é preciso muita cautela para que a apliquemos em um contexto que não é o seu. E o contexto espírita nada tem a ver com a pesquisa em ciências naturais!

Outra razão

Não esqueçamos, na nossa exegese, daquela passagem do LE, já apontada em postagem anterior, a qual diz que, embora o mundo espiritual seja o principal ( o que é óbvio, porque nele é que existem os seres inteligentes da criação, isto é, os seres que pensam, sentem e querem, na sua condição natural, sem o peso da estrutura física), diz também que as duas condições de existência são independentes, isto é, são regidas por leis que são próprias a cada uma delas. Além disto, a resposta (à pergunta 86) afirma que os dois mundos incessantemente reagem um sobre o outro. Não se diz que o mundo espiritual controla o mundo material. Mas os espíritas, na sua maioria continuam a usar de modo equivocado a afirmativa sobre a precedência do mundo espiritual...

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Outras causas

Façamos um pequeno exercício de exegese. Chama-se de exegese examinar um texto ou uma palavra procurando discernir a sua real significação, adicionando informações que não estão no objeto do exame.
A resposta à pergunta 459 do LE é citada muitas vezes para alertar sobre a nossa dependência dos espíritos. Kardec pergunta se os espíritos influem nos nossos pensamentos e ações. Na resposta em francês aparece a expressão "bien souvent", que foi traduzida na edição da Feb, por Guillon Ribeiro, como "de ordinário". Ora, quem diz que algo acontece assim ou assado "de ordinário", diz que a regra, o padrão, seja assim ou assado. Deste modo, a regra seria que os espíritos nos dirigissem e a nossa vontade seria exceção.
Mas a melhor tradução para "bien souvent" é "frequentemente", "muitas vêzes" e não "de ordinário". Posteriormente, outras traduções corrigiram o engano (ou a preferência de Guillon Ribeiro...). Ficou porém a ideia, reiterada em palestras, artigos e livros, da nossa dependência em relação aos espíritos. Muitas vezes, frequentemente, somos influenciados com muita intensidade por espíritos bons ou maus. Muitas vezes, frequentemente, nos sobrepomos a esta influência, para nosso benefício ou prejuízo.
Isto é a vida. A vida é assim...

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

As causas da dependência

Porque essa dependência? Creio que  o motivo básico é a necessidade que muitas pessoas têm de se apoiar em algum ponto de referência mais ou menos mágico que lhes permita se sentir mais seguros para enfrentar os desafios da existência. Um "plano espiritual" com poderes para me resguardar das intempéries da vida torna as coisas muito mais confortáveis. Ainda mais se eu dispuser de um ou mais médiuns, sempre à mão para enviar os meus pedidos de orientação. Transfiro então a responsabilidade das minhas decisões  para o chamado "guia principal", recebido pelo "médium principal", que funciona, assim, como um sacerdote.
Tudo isto é compreensível. Faz parte da fragilidade de muitos.
É compreensível. Mas não deve ser estimulado.
Existem outras causas.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O "Plano Espiritual"

Os espíritas brasileiros adotam uma opinião muito peculiar sobre as relações entre os homens e os espíritos. Esta visão é equivocada e leva os espíritas a visualizar de uma forma extremamente burocrática e submissa essas relações. A quase totalidade dos frequentadores de centros ( e aí estão incluidos assistentes, trabalhadores e dirigentes) acredita que os homens, espíritos encarnados, estão sujeitos à direção e ao arbítrio dos desencarnados, tanto dos bons como dos maus espíritos, deixando-lhes quase nenhuma liberdade para tomar decisões, seja na vida pessoal como nas atividades doutrinárias.
O discurso pode ser diferente mas a prática é esta. Em quase todos ( ou a totalidade...) os centros espíritas ergue~se a sombra temida e sacralizada do "plano espiritual"  ou, simplesmente, o "plano" ou a "espiritualidade", que tem que ser consultada a cada passo. Nenhuma decisão se toma, administrativa ou pessoal, sem que o "plano" dê o seu aval.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Porque falar primeiro do mundo espiritual?

As postagens anteriores tiveram um objetivo: apresentar a minha visão sobre o que chamamos de "mundo espiritual" e como esta condição de existência se interrelaciona, em termos gerais, com o que chamamos "mundo material". Porque me dispuz a levantar esta questão?
Eis o que penso:
As questões básicas da visão de mundo espírita, em torno das quais todo o restante gira, são:
  • a natureza do ser espiritual (o que é o espírito?)
  • a natureza da condição de vida que chamamos de "mundo espíritual" (como os espíritos vivem? como eles se relacionam com os homens?)
  • a natureza do que chamamos de "reencarnação", o processo que liga o ser espiritual ao mundo material ("porque renascemos?")
  • a natureza do que chamamos de "mediunidade", o instrumento de observação de que dispomos para apreender as caracteristicas das coisas do espírito
Lidamos com a mediunidade e entendemos a rencarnação de acordo com o modo pelo qual concebemos o mundo espiritual e as relações dos homens com os espíritos. Por isto é que tentei ( e não sei se consegui...) descrever o mundo espiritual de acordo com o que considero que seja a fonte mais confiável de informações, ou seja, o LE, o LM e os cap. XIV e XV de "A Gênese", além de um apanhado crítico de A. Luiz.
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sábado, 15 de janeiro de 2011

Alerta

Estabeleçamos, desde logo, que este blog é endereçado a espíritas e não se propõe divulgar a doutrina espírita.Partimos, sem discussão, da premissa espírita, a sobrevivência do ser espiritual à morte do corpo. O que pomos para questionamentos ou críticas são os diversos aspectos sob os quais se pode examinar esta sobrevivência.